A asfixia
Mais velho e um pouco mais pesado, observo que a minha vontade de partilhar opiniões sobre os diversos assuntos se reduz progressivamente. Talvez a irreverência de marcar a agenda, mesmo a da nossa convicção interior, seja apenas uma forma de ganhar idade. Como miúdas que se maquilham para entrar na discoteca, assim sinto que em longo tempo fui produzindo panfletos sem mais valor que a agitação do vento que criavam. Esta é a era do descrédito, a da asfixia. Quando ao silêncio se somam sons para lhe engrandecer o corpo das ideias, a silhueta das sensações, o que se lhe faz de facto é arredondar a pança numa asfixia inútil. Em cada palavra há antes um engasgamento, uma aflição. Uma noção de que a liberdade existe positivamente nas coisas que existem em virtude delas. Ora eu vejo agora que afinal estava tudo errado, li mal o texto, descompreendi imenso: a maior liberdade vivi-a em todas as coisas que não fiz, em todos os lugares onde não fui. De facto, a faca não corta o fogo.
