A luz toda
Na sombra de uma página em branco torturo um pouco mais: as memórias, o cheiro da terra, um mar de oliveiras, o sorriso amplo num carro veloz. Nas janelas, a aldeia fazia-se um quadro bucólico enquanto a minha cabeça borbulhava poemas. Hoje o poema foge-me das mãos como um gato assustado, vejo-o subir a ladeira de olhos negros, ao fim da tarde, leva uma sardinha nos dentes e é, de facto, o meu poema assustado, aquele que nas horas vazias, deitado na cama da minha avó, permiti-me tecer de seus novelos coloridos, um pequeno gato assustado a arrebitar a ponta espigada de um novelo, o poema, as minhas mãos, o meu medo negro a subir o monte, vêmo-lo no último fio de luz aninhar-se nas copas de uma oliveira, preparado para dormir. Nas noites de verão e em torno de uma mesa muito comprida, a minha mãe distribuía talhadas de melancia como quem espalha um baralho de cartas. Nessa altura eu ainda não conhecia as cartas de tarot ou miúdas que me solicitassem, por motivos puramente astrológicos, notícia de nascimento. Em noites de festa estendíamos na varanda uma manta sobre as pernas e ficávamos a escutar as luzes da banda da aldeia, as modas todas, íamos de mãos dadas ver girar as bailarinas ou deixar para o ano seguinte, para o verão seguinte, ou o verão depois desse, aquela conversa com a neta da vizinha, emigrada em frança, certamente boa moça, que nos piscava o olho enquanto abria e fechava muito a boca, mascando pastilhas de menta. Em certa noite, tendo adormecido ao acaso, passaram-se todos os anos. Acordei na vertigem dos trinta, mais pesado e cansado, atordoado de espanto. Apaixonei-me para sempre, longe das oliveiras, no piso térreo do El Cort Inglés. Encontrei alegria no trabalho, nos filmes, nos gatos. A aldeia existe ainda na lonjura impossível da distância, existe com a memória da minha avó dentro, forte e meiga, como existe ao fim do mar da foz o mesmo barco-sombra, estacionado há décadas, vestido de nevoeiro. A minha mãe continua a cortar fatias de melancia que comemos ao largo de uma mesa pequena. Levanto-me para arrumar os pratos, passo a mão pela cabeça do gato e lembro-me daquele poema, o que vi fugir. Vivo dessa sombra, que é também a luz toda.
