Escadas e ondas
Eu descia as escadas ao som crocante das carapaças dos caracóis que pisava. Estava escuro, a noite enérgica e muito húmida. É difícil imaginar que existam caracóis e que tenham alguma forma de vida. O mesmo pode ser dito sobre muitos homens e sobre as suas carapaças.
E em breve uma onda mansa começará a recolher da praia os corpos dos nossos pais. Pouco ficará dessa espuma. É melhor que nos acostumemos ao sabor do mar, ao arrepio das marés.
Eu descia as escadas e não via nada. Ao longe o latir de cães que pensavam em rasgar a minha carne, mas ainda assim respiro fundo para ouvir, ainda mais longe, esse sopro do mar, sísmico e liso, inadiável.
