Exercício de escrita
Senta-te e define um temporizador que governe o tempo durante 5 minutos. Monta o teu aparato performativo, para que não te falte nada, abre um disco ou pega num café fresco, que seja negro e inunde a sala. love story, dos my new band believe (uma adição nova), fumega pelas colunas. Falarei sobre a forma como Lisboa me entra em todos os poros, obstruindo liberdades cutâneas. Esta é a época das alergias, e Lisboa é o sistema imunitário do grande corpo nacional. Portugal deitado sob a luz branca é um bebé chorão e ranhoso. A ideia do trânsito a cuspir para cima da esplanada a sua névoa química. A ideia de ainda não ter conseguido entrar na livraria. Vamos tomar um café, melhor coisa não há, mas fecha à segunda para descanso da equipa. É o tempo das alegrias, é abril, a revolução pulsa na memória como embarcação distante, vemo-la disforme numa linha de horizonte. Now you’re a river in me / You’re in my bones / I wanna swim to the sea. Que descanso leva, entretanto, a equipa? Pôr os putos na escola, levantá-los ao fim da tarde, conduzir navios, passear o cão. Se eu escrevesse mais devagar, e trabalhasse mais devagar, cinco minutos seriam cinco dias, tempo: que mole imensa de partículas, um molho espesso, ao chegar a casa a limpeza da pele, o descanso dos braços, acreditar num exercício de escrita, ou num acordo no Irão, vou preparar o jantar, deixar que a noite caia como um cortinado, abrir todos os livros numa única página de cada vez.
