Prece
Dai-me o descanso de ter feito o trabalho justo e não ter morrido na praia, a vinte passos de ser um gajo formado, um gajo pronto a vingar. Das ideias cristalinas remover a poeira que lhes consome a essência, para que sejam coisa pura, e livre por ser pura. Ninguém levanta desse olhar a madrugada de outro sonho, aquele que construímos no reconhecimento dos outros e na alegria florida do nosso mesmo olhar. Não nos olharmos com medo de um espelho, muito menos vivermos na ansiedade do reflexo: sermos simplesmente o que éramos antes desse retrato de luz, e levarmos o seu rasto para os ínfimos instantes seguintes, e depois todos. Isto é um texto sobre querer a paz e sobre viver a paz dentro do corpo, nunca oferecida, antes encontrada depois de buscas ardilosas, e é sobre não ter medo de dizer francamente os sentimentos puros, os tais livres porque puros, as ideias cristalinas que ninguém sabe negar, a menos que por má fé, a menos que por medo do espelho. A tempestade ergue-se no Oeste para fazer tilintar armários plenos de cristais, a espuma do vento traz felizes memórias insulares, mas nenhum copo se quebra nem nenhuma porcelana perde o seu azul. Está tudo guardado para um repasto quente, de portadas abertas para a entrada da luz. Então eu embaraço-me e penso que tudo isto é um pouco ridículo e que talvez melhor fora apagar as palavras e remetê-las ao fundo interior onde se guardam as sombras. Mas hoje não: o vento acordou-me a meio da noite, vi passar na janelas os sete rios de chuva, e fiquei ali alguns minutos a confundir luminárias de renda com os fósforos charmosos dos vidros automóveis. Fiquei ali engolindo em seco a minha própria fome, calmo como se a morte fosse uma propriedade exclusiva da manhã.
